O sonho americano é mantido à custa do negro americano, por James Baldwin

Tradução de Rodolpho Camargo e revisão de Soma Livros

James Baldwin em Hyde Park, Londres — Allan Warren, 1969 (Creative Commons)

A Soma Livros publica, em português, a transcrição da fala do escritor James Baldwin proferida em um debate com William F. Buckley Jr., realizada na universidade de Cambridge, em 1965. A fala de Baldwin é histórica e profética, e continua ainda atual.


Introdução


Em razão aos protestos relacionados ao racismo estrutural nos Estados Unidos em 2020 e para lembrar e manter sempre em destaque a luta do movimento LGBTQIA+, publicamos no blog da Soma Livros a fala do escritor James Baldwin, proferida em 1965 em um debate na universidade de Cambridge, nos Estados Unidos.


A transcrição do áudio foi feita com base no vídeo que se encontra no Youtube no canal da The Riverbends, uma organização que promove a história e genealogia afro-americana, e que também está arquivado no site Internet Archive.


Mas por que escolhemos James Baldwin e esta fala?


A fala de Baldwin voltou ao debate este ano devido a sua relevância e atualidade em seus argumentos. Porém, não encontramos uma legenda em português confiável para o vídeo, nem mesmo sua transcrição. Assim, pedimos gentilmente que a cientista política Rima Regas do blog #42 cedesse sua transcrição em inglês para podermos traduzir para o português.


James Baldwin teve naquele ano a oportunidade que poucos negros puderem ter. Ele foi convidado a confrontar o pensamento de William F. Buckley Jr., um sociopolítico conservador americano, em um debate cujo tópico foi nomeado de “ O sonho americano é mantido à custa do negro americano?”.


Um momento histórico. Numa câmara composta por cerca de setecentas pessoas, e apenas duas delas são negras. Um é o próprio Baldwin, o outro, um amigo que veio apoiá-lo. Baldwin começa seu discurso se comparando com Jeremias, o profeta bíblico que, entre tantos feitos, confrontou reis e denunciou as mazelas sociais que seu povo vivia.


Do outro lado, Buckley aguarda sua vez. Sua fala antes e depois demonstra uma completa ignorância em relação aos problemas sociais enfrentados pelos negros americanos. Ela, inclusive, não merece publicidade e deve ser esquecida e engolida pelo tempo por conter argumentos que nada agregam a visibilidade das lutas pelos direitos cíveis da população negra americana que, naquele ano, viu as Marchas de Selma a Montgomery acontecerem.


Baldwin, por sua vez, via naquele ano — e ainda hoje — sua produção literária sendo extremamente relevante, mesmo que em seu próprio país fosse visto com desconfiança.


De acordo com o livro All Those Strangers: The Art and Lives of James Baldwin, de Douglas Field, (Oxford University Press, 2015 — sem tradução no Brasil), que analisa mais de 1.884 páginas escritas pelo FBI sobre James Baldwin,o autor era vigiado por ter, na época, amizades com ativistas negros e ligações com movimentos de direitos civis negros. Baldwin disse ao The New York Times, em 1963, que os negros não tinham, por tanto, motivos para acreditar no FBI.


Falas provocativas, lúcidas e, por que não, proféticas, eram comuns a Baldwin. Nesse discurso em Cambridge, podemos ver toda sua potência intelectual para elucidar um tema que hoje ainda é extremamente relevante.


Esperamos que aproveitem mais um texto inédito que a Soma Livros traz para seus clientes e amigos.

Detalhe de The Battle of Prairie Dog Creek — Ralph Heinz, 1867 (Creative Commons)

Boa noite.

Não pela primeira vez, encontro-me na posição de uma espécie de Jeremias¹.

Não discordo de Burford, por exemplo, de que a desigualdade sofrida pela população negra dos Estados Unidos seja um obstáculo ao sonho americano. Porque de fato é.


Mas venho divergir de algumas outras coisas que ele diz. Outro elemento mais profundo de um certo constrangimento que sinto diz respeito ao ponto de vista das pessoas, à forma como elas enxergam a realidade e qual é seu sistema de realidade.


Parece que há duas proposições perante a Câmara: “o sonho americano é mantido à custa do negro americano?” ou se “O sonho americano é mantido à custa do negro americano!”.


Essa questão traz consigo uma carga asquerosa. Dessa forma, a resposta, ou a reação, de alguém a essa pergunta depende do efeito e de onde ela se encontra no mundo, como ela enxerga a realidade e qual o sistema de realidade que ela tem.


Ou seja, depende de premissas que mantemos tão profundamente, que dificilmente estamos cientes delas.

Pensem em um arrendador de terras branco da África do Sul ou do Mississippi, um policial do Mississippi ou um francês expulso da Argélia: no fundo, todos têm um sistema de realidade que, no caso do exílio francês da Argélia, por exemplo, os obriga discordar das razões que os franceses tiveram para governar a Argélia.


O policial do Mississippi ou do Alabama realmente acredita que, ao enfrentar uma criança ou um adulto negro, essa pessoa só pode estar louca a ponto de atacar o sistema ao qual deve toda a sua identidade.


Obviamente, para uma pessoa como esse policial, a proposição que estamos tentando discutir aqui hoje não existe.


Por outro lado, falo aqui como uma das pessoas que mais foram atacadas pelo que agora devemos chamar de sistema de realidade ocidental ou europeu.


Os brancos do mundo todo, aos quais nos referimos como supremacia branca (odeio dizer isso aqui), vêm da Europa. Foi assim que essa supremacia chegou aos Estados Unidos.


Abaixo deles, qualquer que seja a reação de alguém a essa proposição, deve estar a questão de saber se as civilizações podem, como tais, ser ou não consideradas iguais ou se a civilização de uma pessoa tem o direito de ultrapassar e subjugar (e, de fato, destruir) outra.


Mas o que ocorre quando isso acontece? Deixando de lado todos os fatos físicos que podem ser citados. Deixando de lado estupro ou assassinato. Deixando de lado a quantidade sangrento de opressão com o qual já estamos familiarizados de certa forma. A coisa mais séria e mais privada que isso faz aos subjugados é destruir seu senso de realidade.

Destrói, por exemplo, a autoridade que o pai de uma pessoa tem sobre ela. O pai não pode mais dizer nada a essa pessoa, porque o passado desapareceu e esse pai não tem poder no mundo. Isso significa que, desde o momento em que uma pessoa negra nasce nos Estados Unidos, naquela república cintilante, tudo o que ela vê, todo rosto, é branco.


E como ela ainda não viu um espelho, supõe que também seja. É um choque enorme descobrir por volta dos 5, 6 ou 7 anos de idade que a bandeira à qual você jurou lealdade, juntamente com todo mundo, não jurou lealdade a você. É um choque enorme descobrir que, quando você torcia para que Gary Cooper² matasse os indígenas, os indígenas eram você.


É um choque enorme descobrir que o país em que você nasceu e ao qual você deve sua vida e sua identidade não tem, em todo seu sistema de realidade, lugar para você.


A insatisfação, a desmoralização e a lacuna entre uma pessoa e outra apenas com base na cor de sua pele começam aí e aceleram, por toda a vida, até o presente, quando ela percebe que está com trinta anos e tem dificuldade de confiar em seus compatriotas.


Com trinta anos, você já passou por uma espécie de moinho. E o efeito mais sério desse moinho, novamente, não são o enorme número de desastres, os policiais, os taxistas, os garçons, os donos do apartamento que você aluga, os bancos, as seguradoras, os milhões de detalhes, vinte e quatro horas por dia, que deixam claro que você é um ser humano sem valor.


Não é isso. É que com trinta anos você começa a ver isso acontecer com sua filha, com seu filho, com sua sobrinha ou com seu sobrinho.

Detalhe de policias do estado de Alabama nos protestos de Selma, em 1965 (Creative Commons)

Você está com trinta anos e nada do que fez o ajudou a escapar da armadilha. Mas o pior é que nada do que você fez pode salvar seu filho ou sua filha de enfrentar o mesmo desastre e de chegar ao mesmo fim.


Agora vamos falar de valores. Suponho que existam várias maneiras de se dirigir a si mesmo na intenção de encontrar o que essa palavra significa aqui.


De um ponto de vista muito literal, os portos, as ferrovias e a economia do país de forma geral — principalmente dos estados do Sul — não poderiam ter se tornado o que são se não tivessem usufruído no passado e no presente, por tanto tempo, por tantas gerações, de mão de obra barata.


Afirmo com muita seriedade e sem exagero: eu colhi e carreguei algodão até os mercados e construí ferrovias sob o chicote de alguém sem ganhar nada. Nada.


A oligarquia do Sul, que ainda hoje tem muito poder em Washington (e, portanto, no mundo) foi criada pelo meu trabalho e pelo meu suor, pela violação de minhas mulheres e pelo assassinato de meus filhos. Isso na tal terra da liberdade e lar dos corajosos. E ninguém pode contestar essa afirmação, pois é um fato histórico.

Essa pessoa sabe que você não é de lá e não vai querer ter contato, razão pela qual você vai precisar esperar um pouco para receber seu telegrama, por exemplo.


Todos sabemos disso. Todos já passamos por isso, e quando você se torna homem é muito fácil lidar com isso.


Mas o que se passa pela cabeça daquela pobre mulher ou homem? Essas pessoas cresceram acreditando (e acreditam piamente) que independentemente de suas vidas serem horríveis (e são), ou de estarem no fundo do poço, ou de serem açoitadas por qualquer desastre, em algo que as consola como uma revelação celestial: “pelo menos não sou negro”.


Agora sugiro que, de todas as coisas terríveis que possam acontecer a um ser humano, esta daqui seja uma das piores. Sugiro que o que aconteceu com os sulistas brancos seja, de certa forma, muito pior do que o que aconteceu com os negros do Sul, porque o policial Clark³ em Selma, no Alabama, não pode ser considerado um monstro. Tenho certeza de que ele ama a esposa e os filhos. Tenho certeza de que ele gosta de ficar bêbado.


É preciso presumir que ele seja um homem como eu. Mas ele não sabe o que o leva a usar um cassetete, a ameaçar com a arma e a usar um bastão elétrico. Algo terrível deve ter acontecido a um ser humano para que ele consiga colocar um bastão elétrico contra os seios de uma mulher, por exemplo. O que acontece a ela é horrível, mas o que acontece com o homem que faz isso é, de certa forma, muito, muito pior.


Afinal, isso não aconteceu cem anos atrás, mas em 1965, em um país abençoado com o que chamamos de prosperidade (uma palavra que não examinaremos de forma muito detalhada) e com um certo tipo de coerência social, que se denomina nação civilizada e que defende a noção de liberdade do mundo.


E o que vou dizer agora é algo real do ponto de vista de qualquer negro estadunidense. Qualquer negro dos Estados Unidos que esteja assistindo isso, não importa onde esteja, até mesmo do Harlem (que é outro lugar terrível), precisa dizer a si mesmo (apesar do que o governo diz, e o governo diz que não podemos fazer nada a respeito): se as pessoas sendo assassinadas nas fazendas do Mississippi e levadas para a prisão fossem brancas, se as crianças correndo pelas ruas fossem brancas, o governo encontraria alguma maneira de fazer algo a respeito.


De novo, odeio parecer um profeta do Antigo Testamento, mas se a 15ª emenda da lei de direitos civis, de quase 100 anos atrás, não foi respeitada até agora, não tenho nenhum motivo para acreditar que será cumprida agora.

E depois de tanta gente chegar no Sul dos Estados Unidos, muitos outros chegaram lá. Então se alguém tem que provar sua posse da terra, 400 anos não são suficientes? Quatrocentos anos, pelo menos três guerras. O solo dos Estados Unidos está cheio de cadáveres dos meus antepassados.


Por que agora é concebível questionar minha liberdade, minha cidadania ou meu direito de morar lá?


E sugiro ainda mais e da mesma maneira que a vida moral dos policiais do Alabama e das pobres mulheres do Alabama (mulheres brancas) foi destruída pela peste chamada cor, pela qual o senso de realidade dos Estados Unidos foi corrompido.

Pilotos militares de caça afro-americanos em março de 1945 — Toni Frissell (Creative Commons)

Vou correr o risco de ser excessivo, mas sempre senti algo quando finalmente saía do país e me encontrava no exterior, em outros lugares, e prestava atenção aos estadunidenses no exterior. Somos compatriotas, eu me importo com eles, e mesmo que eu não me importasse, há algo entre nós.


Sabemos que somos do mesmo país só de olharmos um para o outro. Se vejo alguém do Tennessee, sei de que parte do Tennessee a pessoa veio e o que isso significa. Os ingleses não têm isso. Os franceses também não, nem ninguém no mundo, a não ser outro negro que seja do mesmo lugar.


Dá para ver essas pessoas solitárias negando os únicos parentes que têm. Falamos sobre a integração nos Estados Unidos como se fosse um dilema muito novo. O problema aqui é que estamos integrados há muito tempo. É só me colocar ao lado de qualquer africano para ver do que estou falando. Minha avó não era estupradora. Não estamos encarando o resultado do que fizemos.


Pelo próprio bem, o povo dos Estados Unidos é levado a simplesmente aceitar a sua história. Eu estava lá não apenas como escravo, mas também como concubina. Afinal, sabe-se o poder que existe sobre o outro se você tiver total controle sobre ele.

Quando vi estadunidenses na Europa, parecia que o que não sabiam sobre os europeus era o mesmo que não sabiam sobre mim. Não estavam tentando, por exemplo, ser desagradáveis com a francesa ou grossos com o garçom francês. Não sabiam que estavam magoando aquelas pessoas. Não tinham nenhuma ideia de que aquela mulher ou homem em particular, apesar de falar outra língua e de possuir costumes e maneiras diferentes, fosse um ser humano. E passaram por cima deles com o mesmo tipo de ignorância, condescendência, charme e alegria com que sempre me deram um tapinha na cabeça e me chamaram de neguinho, ficando chateados por eu ficar chateado.


O relevante nessa história é que, quarenta anos atrás, quando nasci, era muito remota a possibilidade de ter que lidar com o que não é dito pelos subjugados, com o que nunca é dito ao mestre. Ninguém pensava nisso.


Quando criança, aprendi nos livros de história dos Estados Unidos que a África não tinha história, assim como eu. Que eu era um selvagem sobre quem quanto menos se dizia, melhor; alguém salvo pela Europa e trazido para a América. Obviamente acreditei naquilo. Eu não tinha muita escolha. Eram os únicos livros que tínhamos. Todo mundo parecia concordar.

E existe uma contra-imagem no mundo apenas desde a Segunda Guerra Mundial. E essa imagem não surgiu por meio de nenhuma legislação ou de parte de nenhum governo americano, mas pelo fato de a África estar subitamente no palco do mundo e de os africanos precisarem ser tratados de uma maneira como nunca haviam sido tratados antes. Isso deu ao negro estadunidense, pela primeira vez, uma ideia de si mesmo além do selvagem ou do palhaço. Muitos dilemas foram e serão criados.


Uma das grandes coisas que o mundo branco não sabe, mas acho que eu sei, é que o negro é como todo mundo. Alguém usou o mito do negro e o mito da cor para fingir e presumir que você estava lidando com algo exótico, bizarro e praticamente, de acordo com as leis humanas, desconhecido.


Infelizmente não é verdade. Também somos mercenários, ditadores, assassinos, mentirosos. Também somos humanos.


Harlem no Verão, 1935/9 — New York Public Library (Domínio Público)

É crucial que consigamos aceitar e estabelecer algum tipo de diálogo entre as pessoas que eu finjo acreditar que pagaram pelo sonho americano e aquelas que não o alcançaram, caso contrário teremos sérios problemas. No fim das contas, é isso o que mais me preocupa.


Estamos todos nesta sala, penso eu, relativamente civilizados. Podemos conversar uns com os outros, pelo menos em certos níveis, para que possamos sair daqui presumindo que a medida de nosso esclarecimento, ou pelo menos de nossa gentileza, tenha algum efeito no mundo. Mas talvez não tenha.


Lembro-me, por exemplo, quando o ex-procurador-geral Robert Kennedy disse que era concebível que em quarenta anos pudéssemos ter um presidente negro nos Estados Unidos. Suponho que os brancos devam ter considerado aquela declaração muito emancipada. Não estavam no Harlem quando ouviram essa declaração pela primeira vez. E não estão aqui.

E provavelmente nunca ouvirão o riso, a amargura e o desprezo com que essa declaração foi recebida. Do ponto de vista do homem da barbearia do Harlem, Bobby Kennedy chegou aqui ontem e já está a caminho da presidência. Estamos aqui há quatrocentos anos e agora ele nos diz que talvez em quarenta anos, se formos bons, poderão deixar-nos nos tornar presidente.


E é perigoso ignorar qualquer coisa que um americano branco diga. O motivo da hesitação política, apesar da vitória descomunal do Presidente Lyndon B. Johnson, é que fomos traídos pelos políticos dos Estados Unidos por muito tempo. Já sou adulto e consigo entender uma explicação.